quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Quando a dor nos visita

Não são poucas as vezes em que, na tentativa de atrair pessoas ao evangelho, utiliza-se o expediente de oferece-lo como a solução para problemas cotidianos, melhora de vida e fim do sofrimento.
As pessoas têm sido atraídas não para o Cristo, nem pelo que ele é. Nem tão pouco são atraídos por causa do maior e mais importante feito que alguém já fez por toda a humanidade: deu-se a si mesmo para que outros pudessem viver. “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:28).

Muitos são atraídos para Jesus pelo que ele pode dar, visando alguma coisa. São atraídos pensando no que podem “ganhar com isso!”.

O resultado? Desanimador! Cada dia mais pessoas decepcionadas, pessoas que compraram “bênçãos” ao invés de vida (gato por lebre?). Gente que apostou tudo num novo formato de vida e descobriu que, a cada dia, precisava de mais milagres, porque não foi ensinada a pescar. Ao invés disso, teve peixe e pão sempre que a fome apertou (pelo menos a promessa de ter).

O evangelho não promete nada disso. Jesus ao perceber que a multidão o seguia por causa do pão multiplicado, deixou claro que o verdadeiro alimento era ele. Que era necessário ter parte com ele, a verdadeira comida. E na sequência pronunciou um dos seus mais duros discursos, a ponto de muitos irem embora.

Algo que atormenta todas as pessoas, quer cristãos ou não, é a dor. O problema da dor, através dos séculos, continua sem resposta.

Não nos alegramos por ter uma dor de cabeça. Não nos alegramos por ter um câncer nos consumindo. Mas podemos nos alegrar com a presença de Deus no meio de nossa dor. É possível sentir paz mesmo em meio à enfermidade. O que precisamos entender, para que não nos decepcionemos quando a aflição nos atinge, é que nós devemos esperá-la! É parte de nosso chamado como cristãos. Deus nos chamou para um mundo caído, para ministrar em um mundo que é um rio de lágrimas. É um lugar de dor. Não estamos livres dele, vivemos nele.

As palavras de Jesus “Neste mundo vocês terão aflições;” (João 16:33) deixam isso claro, sem meias palavras.

Somos afligidos com sofrimento. Por quê? Por que somos afligidos? As razões podem ser várias.

Temos sido maus mordomos da vida. Péssimos administradores do tempo, não cuidamos da nossa saúde, não nos alimentamos corretamente, dormimos pouco, guardamos rancores, nos endividamos, nos isolamos das pessoas, negligenciamos o cuidado com os que dependem de nós e muitas outras coisas.

Pode ser que Deus precise nos corrigir, ele pode irar-se e, inclusive, nos adoecer ou abater. Ele faz isso! Há diversos exemplos nas Escrituras. Como Miriã contraiu lepra? (Números 12:9-10) Deus a afligiu com lepra, para trazê-la ao arrependimento. E o que Jesus estava dizendo aqui? “Mas se não se arrependerem, todos vocês também perecerão". (Lucas 13:5).

Às vezes, nosso sofrimento pode ser porque Deus está nos corrigindo ou nos disciplinando. “Suportem as dificuldades, recebendo-as como disciplina; Deus os trata como filhos. Pois, qual o filho que não é disciplinado por seu pai?” (Hebreus 12:7).

É claro que não podemos concluir que todas as vezes que ficamos doentes, ou todas as vezes que sofremos, há uma correlação direta entre nossa desobediência e a dor que estamos experimentando. É um pensamento raso, a reflexão é mais profunda. Jó é uma prova que refuta esse argumento. Jó era mais justo do que qualquer um, e, ainda assim, sofreu mais do que qualquer um; e seria um terrível engano assumir que havia uma relação direta entre a sua culpa e a sua dor.

Então, nem sempre conhecemos o motivo! Exato, e não precisamos conhecer. O que precisamos conhecer é a Deus. Jó exigiu uma resposta para sua dor e pediu que Deus falasse com ele e lhe explicasse. Deus apareceu a Jó e o interrogou por um longo período. Que resposta Jó conseguiu de Deus? Nenhuma. Deus não lhe apresentou os motivos do sofrimento. A única resposta que Jó recebeu para sua aflição foi o próprio Deus. A presença de Deus. O que Deus estava dizendo era: “Jó, eu sou; estou com você; confie em mim”. Quando as pessoas dizem “confie em mim”, é hora de correr. Mas quando Deus diz “confie em mim”, faça isso.

Deus apresentou a Jó a sua soberania. Tudo o que precisamos muitas vezes não são respostas, mas convicções, ou seja, fé. E Jó, convencido pelo próprio Deus, o fez com maestria. Não posso deixar de abstrair dessa história: para nós é fácil, conhecemos os bastidores, temos o diálogo de Deus com satanás no início do livro. Jó não sabia de nada disso. E só posso concluir: Deus é maravilhoso, correu o risco, “apostou” no humano. Um Deus assim merece ser adorado, respeitado e amado.

Deus nunca prometeu a nenhum de nós que jamais iríamos ao vale da sombra da morte. O que ele nos prometeu foi que ele iria conosco.  “Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo;” (Salmos 23:4).

Nós temos o Bom Pastor. Temos sua presença, seu consolo, o que não significa que somos removidos da arena da dor, mas que somos sustentados na arena da dor.

A Deus toda a Glória!

Carlos R. Silva
verão 2015

Referências:

·         Carlos R. Silva, Reflexões.
·         R.C. Sproul. © 2014 Ligonier Ministries.
·         Bíblia de Estudo NVI, Vida.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Verdadeira Força é a Fraqueza

No livro Das profundezas – preces, de Kierkegaard, há uma oração intitulada “A fraqueza verdadeira”. Assim se expressa o filósofo dinamarquês: 

“Pai celeste! No mundo cá de fora, um é forte, outro é fraco. O forte – quem sabe – envaidece-se com a sua força; o débil suspira e, ai de mim, torna-se invejoso. Mas aqui, bem no interior da tua Igreja, todos somos fracos: aqui, perante tua presença – tu és o poderoso, só tu és o forte”.

Iniciamos o novo ano, traçando planos e projetos para a vida pessoal, profissional e ministerial.
A esta altura, já participamos de campanha de oração com o alvo de termos meses abençoados pela frente.
Sejamos honestos, nem tudo serão flores. E quando vier aquela sensação de impotência frente aos problemas que enfrentaremos? E quando a dúvida parecer falar mais alto, lá no íntimo?

O filósofo cristão Kierkegaard foi duro com o cristianismo de sua época, principalmente sua Igreja, a Luterana. Ele a chamava de “igreja de domingo”. Muita forma e pouca vida. Para ele, a questão fundamental não era se o cristianismo era verdadeiro, mas se era verdadeiro para a pessoa. Se a pessoa o vivia.

Hoje se procura uma igreja pelo que ela oferece, pelo entretenimento, e status que dá. Há até o termo igreja da moda. 
Não há muita preocupação se ela chama à uma vida santa. É um cristianismo social, de compromissos mundanos e conveniências: “O que é bom para mim?”.

No pensamento secular você é o que aparenta

No mundo, as pessoas são avaliadas pela força social, econômica ou cultural. A roupa e o carro dizem quem somos e quanto temos. Lutamos por status. Queremos ser grandes aos olhos alheios.
Quem não pode ser envolve-se em fofocar sobre os “famosos”, na Internet ou qualquer outra mídia, ou meio de comunicação.

E dentro da Igreja?

Mas dentro da igreja, diz Kierkegaard, todos são pequenos. Há só um Grande, o Senhor. Nós não fazemos a grandeza da igreja. Deus faz!

Dependência saudável

Alguém disse que admirava os pastores por que têm uma vida espiritualmente superior. Não é verdade. Estão sujeitos às mesmas provações que todos os demais cristãos. Passam por vales e enfrentam batalhas de todo o tipo. Não são um super-homem espiritual. Nunca foram.

No princípio, isto arrasa a qualquer um. Vemo-nos indignos do ministério. Como é que Deus nos chamou para o ministério pastoral? O que ele teria visto em nós?
Mas tenho aprendido que não preciso ser um super-homem. Preciso apenas ser dependente da graça de Deus. Esperar e viver da sua misericórdia.

Deus não espera que sejamos infalíveis e invencíveis, mas que sejamos suscetíveis, que estejamos ao alcance de sua graça.
Ele disse a Paulo: 
“A minha graça é tudo o que você precisa, pois o meu poder é mais forte quando você está fraco” (2Co 12.9).

“A minha graça é suficiente para você”. Solução melhor do que retirar o espinho de Paulo. A fraqueza humana abre a oportunidade ideal para a demonstração do poder divino.

Não somos vasos de ouro, mas de barro. São estes que Deus usa:
“Porém nós que temos esse tesouro espiritual somos como potes de barro para que fique claro que o poder supremo pertence a Deus e não a nós”.
2Coríntios 4.7

Somos fracos e carentes da graça de Deus. Nosso Salvador nos anima, perdoa, capacita e nos ajuda a viver.
A igreja de Jesus é a confraria de fracos e pecadores que ele, graciosamente, salvou e capacita para a vida. Fracos e pecadores que têm um Deus de poder e graça. Isto basta. Assim o fraco se torna forte.

A Deus toda a Glória!


Carlos R. Silva
verão 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A base do ministério é o caráter

O perigo de uma vida dupla

A mídia tem sido especialmente dura com pessoas no ministério cristão que levam vidas duplas e causam desgraça a si mesmas, àqueles que amam e ao evangelho. Sabe-se que ministérios não são o único ambiente em que os hipócritas se escondem. Eles estão em todas as profissões. Banqueiros roubam dinheiro, atletas usam drogas, advogados fabricam evidências, políticos aceitam propinas, médicos vendem narcóticos e pais abusam de seus filhos. A igreja não é o único covil de ladrões. A natureza humana, sendo o que é, nos garante que encontremos pessoas mascaradas nos tribunais, clínicas, nos auditórios de palestras, escritórios oficiais, em mesmo em lares que parecem normais e felizes.

Isso, entretanto, não é desculpa para “pecados religiosos”. As pessoas esperam mais dos ministros do evangelho, justamente porque o ministério cristão está associado ao caráter. Batsell Barret Baxter afirma: “O caráter do pregador tornou-se a base sobre a qual tudo o mais se firma ou despenca”.

A construção do caráter

Phillips Brooks definiu a preparação para o ministério como “nada menos que a construção de um homem”. Ele disse:

Ela não pode ser o mero treinamento para certos truques. Também não pode ser o fornecimento de conhecimento abundante. Deve ser nada menos do que o amassar e temperar a natureza de um homem até torna-la de tal consistência e qualidade que seja passível de ser transmitida.

Em um de seus sermões, Brooks define “o grande propósito da vida” como “a moldagem do caráter pela verdade”. O que significa que precisamos ter talento, treinamento, experiência, reputação e personalidade, mas se não tivermos caráter, não teremos nada, pois a base do ministério é o caráter.
Robert Murray M’Cheyne escreveu a seu amigo missionário Daniel Edwards:

Lembre-se de que você é espada de Deus – instrumento dele -, creio que um vaso escolhido para carregar seu nome. O sucesso dependerá, em grande parte, da pureza e perfeição do instrumento. Não são tanto os grandes talentos que Deus abençoa, mas uma semelhança com Jesus. Um ministro santo é uma arma terrível nas mãos de Deus.

O caráter é a matéria-prima da vida, a partir da qual, pela diligência, construímos um templo, ou, por negligência, produzimos lixo.
Abraham Lincoln dizia que o caráter é como uma árvore e a reputação é como a sombra desta árvore. A reputação é o que as pessoas pensam que somos; caráter é o que Deus sabe que somos.  O evangelista D. L. Moody disse que o caráter é “o que um homem é no escuro”. O mestre em finanças J. P. Morgan declarou que “caráter é a melhor garantia que uma pessoa pode dar”.
Caráter é o que Jesus descreveu nas Bem-aventuranças e demonstrou em sua vida e ministério, conforme o relato dos Evangelhos. O caráter é formado pelas qualidades que o apóstolo Paulo chamou de “fruto do Espírito” em Gálatas 5.22,23; são as qualificações para o ofício em 1Timóteo 3 e em Tito 1. Pessoas de caráter têm integridade; o que elas dizem e fazem vem do coração inteiramente dedicado a Deus.

Integridade significa inteireza interior; não tentamos enganar os outros (hipocrisia) ou a nós mesmos (duplicidade).
Integridade é José dizer “não” à mulher de Potifar e ir para a prisão por ser honesto e casto. É Moisés desistir dos privilégios de um príncipe egípcio pelos perigos e problemas existentes para um profeta judeu, e por quarenta anos, sacrificialmente, servir a um povo que não merecia a sua liderança. É o profeta Jeremias devotar sua vida a suplicar a seu povo e ver a nação morrer perante seus olhos. É Paulo dizendo: “Meus irmãos, tenho cumprido meu dever para com Deus com toda a boa consequência, até o dia de hoje” (Atos 23.1, NVI), e baterem em sua boca por ter dito isso. É Martinho Lutero, na Dieta de Worms, declarando: “Não posso fazer outra coisa; esta é a minha posição. Que Deus me ajude. Amém”, e mesmo que não quisesse iniciava o movimento de Reforma da Igreja. É Jim Elliot escrevendo em seu jornal: “Não é tolo aquele que abre mão do que não pode reter para ganhar o que não pode perder”.

Caráter se revela nas coisas escondidas do dia-a-dia, como dizer a verdade quando uma mentira ira ajuda-lo a escapar de problemas, levar a culpa quando alguém a merece, não tomar atalhos em um trabalho que ninguém vai inspecionar, ou fazer sacrifícios para ajudar as pessoas que não irão apreciar o que você fizer de qualquer maneira. Caráter significa viver sua vida diante de Deus, temendo só a ele e procurando agrada-lo, não importa como você se sente ou o que outros possam dizer e fazer.

Construir um caráter é processo difícil que envolve a experiência de toda a vida. “A força do caráter é cumulativa”, escreveu Emerson em seu ensaio Autoconfiança. “Todos os dias de virtude que se passaram colaboram para tal.”
Para os cristãos, formar um caráter saudável e santo é levar as Escrituras a se tornarem uma parte do seu ser interior e obedecer ao que elas dizem. Esse tipo de caráter vem com o tempo dedicado, fervorosamente, à adoração e à oração, com os sacrifícios feitos com alegria e com o desejo de servir aos outros. O caráter é fortalecido quando sofremos e dependemos da graça de Deus para sermos conduzidos por ele e glorificamos seu nome. Isso significa dizer como Jó: “Mas ele conhece o caminho por onde ando; se me puser à prova, aparecerei como o ouro.”(Jó 23.10, NVI).

Nos dias de hoje, em que a mídia faz mágicas, pessoas insignificantes e sem talento podem alcançar fama internacional muito rapidamente, mas esse tipo de reputação não é caráter. Walter Savage Landor, nunca viu um aparelho de televisão, mas tinha essa “falsa fama” em mente quando, há mais de um século, escreveu: “Quando homens pequenos produzem grandes sombras, é sinal de que o sol está se pondo”.

Raramente o caráter se constrói em solidão; precisamos da responsabilidade e prestação de contas que outros trazem para nossa vida para que o caráter seja saudável e equilibrado. Embora não apreciemos certas experiências, precisamos dos desapontamentos e machucados que experimentamos quando amamos e servimos às pessoas. Sejam pessoas ligadas ao ministério pastoral, ao conselho de uma igreja, ou à família. O relacionamento de compromisso nos ajuda a seguir o planejamento de Deus e a construir um caráter que o agrade.

Questões de caráter

A natureza do ministério cristão nos apresenta oportunidades que podem ser testes que nos ajudam em nossa estruturação pessoal ou nos tentam para nos destruir. As pessoas nos abrem suas vidas e relacionamentos confidenciais podem levar à exploração. Semana após semana, nos apresentamos perante as pessoas e declaramos a Palavra de Deus. A apreciação destas pessoas pode inflar nosso ego, ou sua crítica, nos abater. O que achamos que é sucesso, Deus pode ver como fracasso, da mesma forma que nossas falhas aparentes podem tornar-se nossas maiores conquistas para a glória de Deus.

Embora chamados de “servos de todos”, os ministros têm mais tempo do que a maioria para administrar seu tempo e planejar suas atividades. “Em uma vida santa, deve haver controle do tempo”, escreveu Ralph Turnbull. “Devemos disciplinar as horas e submetê-las ao propósito de Deus”.

Há também a perigosa influência do amortecimento, a que Geroge Morrison chamou de “habituar-se a lidar com o que acompanha as coisas sagradas”. Mecanicamente, preparamos sermões e os pregamos, mas nosso coração não está abrasado pela mensagem de Deus. Dia após dia, oramos com pessoas feridas, e cada oração é igual à anterior, e ninguém percebe a diferença. O profeta Malaquias tinha esse tipo de ministério em mente quando denunciou os sacerdotes de seu tempo, que eram mercenários e não pastores de vidas. 

Ser capaz de devotar a vida inteira a estudar e ensinar a verdade de Deus, servindo com o povo de Deus, carregando fardos e compartilhando a construção da Igreja, é um grande privilégio!

Como o caráter se destrói

Como uma grande catedral, o caráter se constrói dia após dia, uma pedra de cada vez, com paciência e determinação, todo o tempo procurando seguir o plano de Deus passo a passo. E, como uma grande catedral, o caráter pode ser destruído silenciosamente, em vários lugares escondidos, imperceptíveis, mas nunca despercebidos por Deus. Um dia, a tempestade vem e a estrutura se rompe, e a queda é grande.

O caráter se destrói porque as pessoas falham em colocar em prática Provérbios 4.23: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida” (NVI). A vida é construída sobre o caráter e o caráter é construído sobre as decisões que tomamos. Contrariando os desejos de seus pais e a lei de Deus, Sansão decidiu se casar com uma mulher filisteia, sem perceber que sua decisão foi um dos primeiros passos para a sua derrota. Davi decidiu deixar o campo de batalha e ficar em casa repousando; mas ao deixar de lado suas armaduras, a material e a moral, descobriu que não poderia vencer as astutas ciladas do diabo ou os desejos do próprio corpo. Por outro lado, pessoas como José, Josué, Rute, Ester, Paulo e João, decidiram confiar em Deus, assumiram seu lugar junto ao povo de Deus e foram usados por Deus para realizar façanhas.

A erosão do caráter geralmente começa com a negligência. Deixamos de ler a Palavra, a adoração torna-se escassa e passamos a não dedicar mais tempo à meditação e à oração. Paramos de nos doar e, ao invés disso, começamos a perguntar “O que vou ganhar com isso?”. Paramos de ter fome de santidade e de exercitar a disciplina e o discernimento espiritual. Paramos de fazer aqueles sacrifícios que mostram nosso amor por Cristo e por seu povo. Fazemos nosso trabalho ministerial mecanicamente porque nosso coração não está mais nele. Com o tempo, nos vemos “fazendo arranjos” para pecar, convencidos de que podemos nos livrar da responsabilidade ou culpa daquilo que ninguém sabe.

O processo é mortal. Primeiro oscilamos, depois pecamos em segredo; em seguida vem a oculta erosão de caráter que leva a uma embaraçosa queda pública.
A tragédia é que podemos ser levados a pensar que é possível desfrutar de uma vida dupla sem consequências. Engana-se os outros e, mesmo que não se admita, a si memo. Não há como enganar a Deus e mudar suas leis. “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas 6.7, NVI). O ventre da imaginação dá à luz o pecado e o pecado, por ser um assassino, cresce e começa a matar. “Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte” (Tiago 1.15, NVI). O caráter morre, a devoção morre, o lar feliz morre, a reputação morre, o ministério morre e, talvez, morra também o ministro.

A restauração do caráter

O caráter danificado pode ser restaurado? O ministério rompido pode ser reparado?
Não e sim.
Não, se o ofensor oferece desculpas em lugar de confissão, se mostra remorso em lugar de arrependimento, se resiste à autoridade e busca por todo o lado uma segunda ou terceira opinião. Não, se o ofensor corre para os braços do primeiro falso profeta que disser “Paz, paz”, onde não há paz. Não se o ofensor for em busca de atalhos, um curso de reabilitação rápido e infalível, que não é custoso nem doloroso, supervisionado por alguém que prefere a cal em vez da lavagem branqueadora de Deus.
Sim, se o ofensor está disposto a confessar o pecado com humildade, julgá-lo severamente, desviar-se dele por completo, submeter-se em obediência e cooperar pacientemente enquanto o Oleiro faz o vaso de novo. Se o processo original levou tempo e foi trabalhoso, o processo de reconstrução, da mesma forma, leva tempo e pode ser ainda mais trabalhoso, mas pode ser feito.

Recomendações finais

Nenhum servo verdadeiro de Deus vai tentar descobrir o quão perto do pecado consegue chegar e ainda assim permanecer aceitável para o serviço. Ao contrário, ele respeita as palavras do salmista: “Odeiem o mal, vocês que amam o SENHOR ...” (Salmos 97.10, NVI). Ele considera o conselho de Salomão: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.” (Provérbios 4.23, NVI).

É mais fácil construir um caráter e zelar por ele do que reconstruí-lo depois de tê-lo perdido. “Quero crer que o grande empreendimento na terra é a santificação da própria alma”
(Henry Martyn)

Referências

WIERSBE, Warren W. & David W., 10 Princípios Poderosos para o Serviço Cristão, Editora OBPC, Shedd Publicações, 2013

Compilação de capítulos e notas. As anotações são uma ferramenta mnemônica para o estudo do livro. Muito pouco foi adicionado, vez por outra, uma alteração de sintaxe ou semantica que oferece um entendimento melhor propondo até uma tradução mais adequada.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014 - Um marco, um memorial

Os memoriais trazem à lembrança as vitórias do passado e ajudam a recuperar a confiança e a força de que precisamos no presente.
Durante os tempos de dificuldade, a lembrança dos pontos onde houve mudança em nosso passado serve como encorajamento para o presente. 
Isso nos remete ao feito do profeta Samuel, quando, após a vitória de Israel sobre os filisteus, toma uma pedra, dá-lhe o nome de Ebenézer, ou seja, pedra de socorro, marca o lugar e exclama com convicção: "Até aqui nos ajudou o Senhor". (1 Samuel 7:12)
Eis aí toda a verdade.
Ao final de um ano, não podemos deixar de olhar para trás, lá no início, desde o primeiro mês, e ver quanta coisa aconteceu.
Talvez não tenhamos erigido marcos de pedra, mas trazemos em nossos corações e em nossa lembrança os grandes feitos de Deus em nossa vida.
É tempo de repensar, de rever posicionamentos entender que Deus, através do tempo, trabalha de forma maravilhosa.
É tempo de arrumarmos a casa, e a exemplo do que foi sugerido por Samuel a Israel, tempo de nos convertermos, tempo de nos livrarmos dos ídolos, preparar o coração, agir e nos derramar perante o Senhor.
Marcos significam que a história não termina. Marcos não são a linha de chegada, são pontos de aferição. A história das nossas vidas continua.
Mas toda vez que passamos por um deles, vem-nos à memória os grandes feitos do Senhor e a forma maravilhosa com a qual Ele agiu.
Grandes vitórias estão por vir. Daqui a pouco, teremos 365 novos dias para marcar nossas vidas, nossa caminhada e de muitos com quem convivermos.
Mas fica em nossa história um marco que terá a etiqueta 2014!
Que Deus nos ajude a daqui 12 meses, plantarmos, aqui ou onde estivermos, mais um marco, mais um memorial. 
Vamos chama-lo de Ebenézer, pois não será pela nossa força, será “pedra de socorro” mesmo. E que possamos dizer “Até aqui nos ajudou o Senhor”.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

É Natal. Num menino a esperança!

Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz.
Isaías 9:6

Grandes atos de Deus começaram com o nascimento de uma criança. Deus começa sempre bem do princípio, sempre com uma nova história.
A história da salvação começa com a chamada de Abraão (Gênesis 12), mas ela vai se concretizar com o nascimento de Isaque. É ali que começa a história do povo hebreu, com o nascimento de uma criança. 
Mais tarde, os hebreus estavam no Egito, escravos, debaixo de um pesado jugo e opressão.  Clamaram por um libertador. E a libertação vem, começando novamente pelo berço. Nasce outra criança, nasce Moisés. 
Alguns séculos a frente, o povo está gemendo outra vez, agora sob o domínio dos filisteus. A nação sofreu por quarenta anos. Mais uma vez um libertador e, novamente, o choro de uma criança, nasce um menino. É Sansão.
E, após 440 anos de silêncio sem nenhuma profecia, sem que Deus dissesse nenhuma palavra. Deus volta a falar e, mais uma vez, uma criança. Desta vez a mais importante, Jesus.
Deus começa a trabalhar através do nascimento de uma criança.

Deus é imprevisível

Deus não é programável, não há previsibilidade em suas ações, nos seus atos. Sua maneira de agir e de pensar são diferentes.
Ele não é engessado. Se assim fosse, seria qualquer outra coisa, um ídolo talvez, menos Deus.
Deus é totalmente imprevisível. 
A nação está debaixo da dominação romana, sem liberdade, uma desorientação enorme, partidos políticos se digladiando e eles esperando um libertador, um Messias.  E Deus responde com um menino. Nasceu Jesus.
A maneira de Deus pensar é diferente.
Paulo compreendeu e expressou isso de maneira admirável:
Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. 
(1 Coríntios 1:27)
Eis aí a imprevisibilidade de Deus, a pessoa de Jesus Cristo. A maior demonstração disso. 
Um menino, uma criança até então insignificante, filho de um casal de camponeses, que cresceu numa pequena cidade. Uma cidade com uma população menor do que a de muitos condomínios de nossas cidades.
Uma vida pública de três anos e a sua maior viagem não excedeu a 270 Km. 
Nunca escreveu nenhum livro.
Escolheu doze homens sem nenhuma expressão social ou política, do terceiro mundo de uma época da história humana considerada atrasada.
Mas Ele, Jesus, mudou o mundo para sempre.
Não há um outro nome que fascine mais ou que desperte mais ódio do que o dele. É absolutamente impossível permanecer impassível diante dele. Quando se aprende sobre ele ou a pessoa se rende ou se posiciona contra ele.
A religião que fundou-se sob o seu nome é uma das mais combatidas, mas é impressionante como o cristianismo cresce no mundo inteiro. 
A partir das suas próprias palavras "As portas do inferno não prevalecem" estão sendo derrubadas.
Jesus projetou uma sombra no mundo da qual o mundo nunca mais se livrará.
Ele dividiu a história do mundo em duas partes: antes dele e depois dele. Jesus marcou o mundo para sempre.
De um menino insignificante ao mais famoso, do indefeso ao mais poderoso, do despercebido ao mais notado.
No livro de Daniel, capítulo 2. Há uma visão profética da história do poder mundial, o próprio Deus revelou-lhe isto. Há uma estátua de quatro estágios, ouro, prata, bronze e ferro com barro representando os quatro grandes impérios mundiais. 
Daniel conta e revela o sonho ao rei, sonho que ele mesmo, Nabucodonor tivera. E o desfecho do sonho e interpretação:
Enquanto estavas observando, uma pedra soltou-se, sem auxílio de mãos, atingiu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmigalhou.
Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro foram despedaçados, viraram pó, como o pó da debulha do trigo na eira durante o verão. O vento os levou sem deixar vestígio. Mas a pedra que atingiu a estátua tornou-se uma montanha e encheu a terra toda. 
(Daniel 2:34-35)
A pedra, apontava para Jesus, tipifica Jesus Cristo, atingiu e destruiu a estátua e tornou-se uma grande montanha que cobriu o mundo inteiro. Este é o nome que vai cobrir o mundo inteiro. Seu ensino e influência são eternos.
"...O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão". 
(Mateus 24:35)
Isto é o cumprimento das palvras do profeta Isaías:
"... a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar." 
(Isaías 11:9)
Deus é absolutamente imprevisível!

Deus é o Deus do impossível

Nada é mais indefeso do que um bebê. Depende totalmente do cuidado dos pais para alimentar-se, proteger-se e crescer.
Quanto tempo leva para um bebê tornar-se independente? Talvez, de toda a criação, o bebê humano é o que levará mais tempo para sobreviver independente de quem o gerou.
No entanto a este bebê foi dado "domínio sobre toda a terra, sobre animais, sobre as aves, sobre os peixes e os répteis" (Gn. 1.26).
Este bebê, indefeso, é apresentado no Apocalipse como Rei do reis e Senhor dos senhores (Ap. 19:16).
É mostrado no Apocalipse como aquele diante de quem todos os joelhos se dobram (Ap. 5:8).
Deus é o Deus do impossível. Pode fazer do nada tudo. Foi assim que Ele criou todas as coisas. 
E em Jesus, Deus transformou o filho de camponeses no mais poderoso homem da história.
É fantástico, o mundo inteiro celebrando o seu aniversário, o Natal.

Deus é o Deus das coisas pequenas

Um menino? Lá no Egito se poderia dizer: “Um menino? Precisamos de um guerreiro!”. Nos tempos do Novo Testamento teriam se questionado “Um menino? Precisamos de um líder político, forte, respeitável, cumpridor da lei.”.
Mas através do profeta Zacarias Deus faz uma observação importantíssima:
"... quem despreza o dia das coisas pequenas?" (Zacarias 4:10)
Ninguém despreze o dia das coisas pequenas. Uma pequena igreja que nasce de um grupo de oração, igrejas que chegaram antes da cidade em alguns lugares. Igrejas que começaram com uma família apenas. 
Ninguém despreze o dia das coisas pequenas. Deus é especialista nisso, em começar do nada. 
No Apocalipse Jesus começa a ser mostrado como um cordeiro. Um animal pacato, que nem bali, que vai mudo para o matadouro. Porém mais a frente o cordeiro transforma-se em um leão. 
E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos. 
(Apocalipse 5:5)
É assim que Deus faz. O bebê indefeso é o maior nome dado entre os homens.  Diante dele todo o joelho vai se dobrar.
Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,  
(Filipenses 2:10)
Deus é especialista em pegar o pequeno e torna-lo grande, em pegar o fraco e torna-lo poderoso. 

Conclusão

Um menino nos nasceu. Isto é o Natal. É isto o que se celebra.
Deus gosta de crianças. Jesus, que é Deus, também gosta de crianças.
Então disse Jesus: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas". (Mateus 19:14)
O Reino dos céus será feito de gente que se tornar como criança. E Jesus vai mais longe, ordena que tenhamos comportamento de criança:
e disse: "Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. (Mateus 18:3)
Criança é crédula, criança crê, confia, abandona-se.
E se você quiser entrar no Reino, precisa tornar-se uma criança, nascer de novo, converter-se, começar dos primeiros passos.
Um menino nasceu para nós e com Ele a esperança, vida e garantia de um futuro para todos nós, a vida eterna. Graças a Deus por esse menino.

A Deus toda a glória

Carlos R. Silva
Natal 2014


Referências:

Bíblia Sagrada Almeida Revista e Corrigida, CPAD 
Bíblia de Estudo NVI, Vida
Pr. Isaltino G. C. Filho.