quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Por trás das cortinas

Uma confrontação com o recolhimento de Deus pode ser muito desorientadora. Ela pode nos tentar a ver Deus como o inimigo e a interpretar seu recolhimento como falta de interesse.

Um incidente na vida do profeta Daniel ilustra esse caso. Ele teve uma ligeira – ligeira comparada com a de Jó – confrontação com o recolhimento de Deus. Ele se debatia com um problema diário de oração não atendida: por que Deus ignorava seus pedidos insistentes? Durante 21 dias Daniel se dedicou à oração. Ele ficou pesaroso. Renunciou comidas finas. Jurou não comer carne nem beber vinho e deixou de usar loções em seu corpo. E o tempo inteiro clamou a Deus, mas não recebeu nenhuma resposta.

Um dia obteve muito mais do que esperava. Um ser sobrenatural, com olhos flamejantes como tochas e um rosto como um relâmpago, de repente apareceu a seu lado na margem de um rio. Os companheiros de Daniel fugiram aterrados. Quando ele tentou falar com o ser deslumbrante, mal conseguia respirar.

O visitante explicou a razão de seu longo atraso. Ele fora enviado para atender exatamente à primeira oração de Daniel, mas teve de enfrentar forte resistência do “príncipe do reino da Pérsia”. Finalmente, depois de um impasse de três semanas, chegaram reforços, e Miguel, um dos principais anjos, ajudou-o a abrir caminho através da oposição.

Não vou tentar interpretar esta assombrosa cena do Universo em guerra, exceto para mostrar um paralelo com Jó. Como Jó, Daniel desempenhou um papel decisivo na guerra entre as forças cósmicas do bem e do mal, embora boa parte da ação tenha acontecido fora do alcance da sua visão. Para ele, a oração talvez tenha parecido fútil e Deus indiferente; mas um olhar rápido “atrás das cortinas” revela exatamente o contrário. A perspectiva limitada de Daniel, como a de Jó, distorceu a realidade.

O quadro total, tendo o Universo como pano de fundo, inclui muita atividade que nós nuca vemos. Quando nos agarramos com obstinação a Deus em tempos de dificuldades, ou quando simplesmente oramos, mais – muito mais – do que sonhamos pode estar envolvido. É preciso ter fé para acreditar nisso, e fé para confiar que nunca somos abandonados, por mais distante que Deus pareça estar.

A Deus toda a glória!

Carlos R. Silva
primavera 2013

Referências:
• Bíblia Sagrada
Daniel 10:1-21
• Sinais da Graça – Philip Yancey

domingo, 13 de outubro de 2013

Procurando respostas

Todos têm um sentimento inato de justiça. Ao presenciar um ato de crueldade cometido por outra pessoa, sobe-nos o sangue e a sensação de que ela não pode sair impune. Podemos discordar acerca de regras específicas de justiça, mas todos seguimos algum código interior. É a fome e sede de justiça, como diz Jesus aos que são dele.

E, sinceramente, muitas vezes a vida parece injusta. Qual criança “merece” crescer em favelas ou outros lugares pobres em qualquer parte do mundo? Por que gente como Hitler e Saddam Hussein deveria sair impune depois de tiranizar milhões de pessoas? Por que algumas pessoas bondosas e gentis morrem na flor da idade, enquanto outras, mais mesquinhas, vivem até se tornarem velhos rabugentos?

Todos nós pedimos respostas diferentes a essas perguntas.

O profeta Habacuque apresentou-as a Deus – e recebeu uma resposta clara. Habacuque não mede palavras. Ele exige uma explicação sobre o motivo de Deus não reagir à injustiça, à violência e ao mal que o profeta vê ao seu redor.

Deus responde: Logo os babilônios punirão Judá. Mas essas palavras não o tranquilizam, pois os babilônios são um povo cruel e selvagem. Pode isso ser justiça – usar uma nação ainda pior para punir Judá?

O livro de Habacuque não resolve e não tem todas as respostas para o problema do mal. Mas as conversas desse profeta com Deus o convencem de uma coisa: Deus não perdeu o controle.

Um Deus de justiça não pode permitir a vitória do mal. Primeiro, Deus cuidará dos babilônios nos próprios termos deles, em retribuição à semeadura deles. Depois, mais tarde, Deus intervirá com grande força, abalando as próprias fundações da terra até não sobrar nenhum sinal de injustiça.

“A terra se encherá do conhecimento e da glória do Senhor, como as águas enchem o mar”, promete Deus a Habacuque (2:14).

Um vislumbre dessa glória muda a atitude do profeta, que passa de afronta a alegria.
No decorrer do seu “debate” com Deus, Habacuque aprende novas lições sobre a fé, que são expressas de forma brilhante no último capítulo.

As respostas de Deus satisfazem tanto Habacuque que seu livro, que começa com uma queixa, termina com uma das mais belas canções da Bíblia.

Mesmo não florescendo a figueira
e não havendo uvas nas videiras,
mesmo falhando a safra de azeitonas
e não havendo produção de alimento
nas lavouras,
nem ovelhas no curral,
nem bois nos estábulos,
ainda assim eu exultarei no Senhor
e me alegrarei
no Deus da minha salvação.
Habacuque 3:17-18



A Deus toda a glória!

Carlos R. Silva
primavera  2013


Referências:
·         Bíblia Sagrada
Mateus 5:6
Habacuque  1-3
·         A Bíblia, minha companheira  – Philip Yancey

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Com o coração na eternidade

Rumores de outro mundo

Há em cada um de nós um instinto pelo eterno. Há um anseio por voltar, por conectar, como se estivéssemos longe, ausentes. Um instinto encontrado em todas as sociedades, todos os povos, todas as gentes, um instinto pelo religioso.
Dê-se o nome que quiser, classifique-se como for, sejam budistas, hinduístas, cristãos, todos tendem a venerar alguém maior. Eterno?
O salmista exclama: "A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando poderei entrar para apresentar-me a Deus?". E vai além: “Minhas lágrimas ... me perguntam o tempo todo: "Onde está o seu Deus? ".
Essa aspiração humana é resultado do choque entre o ser finito e a consciência da eternidade.
Nosso coração também percebe a eternidade de formas que diferem das percepções religiosas. Enxerga-se com clareza a beleza no mundo criado, mundo em que vivemos.
Eclesiastes resiste como uma obra de grande literatura e como um livro de enormes verdades, porque apresenta os dois lados da vida sobre este planeta: a promessa de prazeres tão atraentes que podemos dedicar nossa vida à busca deles e, depois a assombrosa percepção de que os prazeres não satisfazem.
O provocante mundo de Deus é grande demais para nós.
Criados para termos outra casa, criados para a eternidade, finalmente compreendemos que nada deste lado do paraíso atemporal aplacará os rumores do descontentamento.
O Pregador escreve: “[Deus] também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez”.
Essa é a ideia central do Eclesiastes. A mesma lição que Jó aprendeu no pó e nas cinzas – que nós, seres humanos, não podemos entender a vida sozinhos – o Pregador, por sua vez, aprende legislando num palácio.
Desespero! Será assim que terminaremos, se não enxergarmos nossas limitações e não nos sujeitarmos aos preceitos de Deus, se não confiarmos no Doador de todos os dons.
Eclesiastes nos convida a aceitar nossa condição de criaturas sob o domínio do Criador, algo que poucos de nós fazem sem resistência.

A Deus toda a glória!

Carlos R. Silva 
primavera  2013

Referências:
  • Bíblia SagradaSalmos 42:2-3 Eclesiastes 3:11
  • Anseio pelo eterno - Igreja Batista da Liberdade
  • A Bíblia que Jesus lia  – Philip Yancey

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Declaração de dependência

"Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.
João 15:5

Ole Hallesby, teólogo norueguês, expressou numa única palavra – “desamparo” -  o melhor resumo da atitude de coração que Deus aceita como oração.


“Orar com palavras ou sem palavras, isso não faz diferença nenhuma para Deus, só faz diferença para nós”, acrescenta ele. “Só quem está desamparado pode realmente orar.”

Praticamente desde o nascimento nós desejamos a autoconfiança. Os adultos celebram o fato como um trunfo quando as crianças aprendem a fazer alguma coisa sozinhas: vestir-se, escovar os dentes, amarrar os sapatos, andar de bicicleta.
Como adultos, gostamos de pagar nossas contas, morar na nossa casa, tomar as nossas decisões, não depender de nenhuma ajuda externa. Desprezamos quem vive à custa de assistência social ou de caridade. Diante de um desafio inesperado, procuramos autoajuda em livros. 

O tempo todo estamos sistematicamente barrando a atitude de coração que é mais desejável a Deus e que melhor descreve nosso Universo.
“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma”, disse Jesus a seus discípulos, um fato que nem querendo podemos negar.
A verdade é: não somos independentes. 


Como crianças talvez nunca aprendesse a ler livros, muito menos escrevê-los, se um professor não se postasse ao meu lado a ensinar-me e corrigir-me erros de leitura.
Como adulto, confio nos meus fornecedores de eletricidade, gás, combustível, água tratada, confio que os fabricantes de veículos e concessionárias de transportes providenciem o meu transporte, que os agricultores produzam os alimentos que vou consumir, que os pastores me nutram espiritualmente.



Vivemos numa rede de dependência, no centro da qual está Deus em quem todas as coisas subsistem.


A oração me força a visualizar minha verdadeira condição. Nas palavras de Henri Nouwen: “Orar é caminhar em plena luz de Deus e dizer simplesmente, sem restrições: ‘Eu sou humano e tu és Deus’”.

A maioria dos pais, sentem uma dor profunda quando o filho supera a dependência, embora eles saibam que essa evolução é sadia e normal.

Com Deus as regras mudam. Eu nunca supero a dependência e, na medida em que penso que o faço, me iludo.

Pedir ajuda está na raiz da oração: o próprio Pai-nosso consiste num conjunto de pedidos (Mt. 6:9-13).

A oração é uma declaração de dependência de Deus.


A Deus toda a glória!


Carlos R. Silva
primavera 2013
Adaptações e Compilação de textos de Philip Yancey, Ole Hallesby e Henri Nouwen

sábado, 14 de setembro de 2013

Jesus: verdadeiro Deus

Paulo afirma que Jesus Cristo foi escândalo e loucura para gregos e judeus (1Co 1:23). Os gregos procuravam explicar Deus a partir de elaborações filosóficas (absolutos metafísicos) e os judeus aguardavam um messias poderoso.

Antes de Jesus, o judaísmo criou a expectativa de que o Ungido de Deus se manifestaria como um grande conquistador, o libertador final – uma encarnação melhorada e glorificada de Moisés, e como um profeta mais exuberante do que Elias.

Nessas duas percepções – grega e judaica – Jesus de Nazaré mostrou-se um fracasso. Nem o absolutamente perfeito da filosofia, nem o supermessias.

Jesus causava horror: se o Deus dos fariseus zelava pela lei, ele insistia que os mandamentos podem ser flexibilizados pela misericórdia. A mulher apanhada no próprio ato do adultério experimentou a força de um amor capaz de vergar a rígida lei. A mulher siro-fenícia, o centurião romano, a senhora impura que padecia com uma hemorragia crônica, o endemoninhado que vivia em sepulcros, o cego da calçada, todos provaram que qualquer um pode aproximar-se de Deus sem intermediação sacerdotal e sem depender do cumprimento da lei.  

O Nazareno acolheu os não-eleitos. Ele democratizou, universalizou, a pretensão de qualquer pessoa achar-se escolhida. Para ele, ninguém foi providencialmente preterido. A graça banalizou a predestinação.

Jesus não amedrontava os ouvintes apresentando um Deus que persegue rebeldes. Pelo contrário, o Deus de Jesus é Pai ferido que espera o filho que saiu de casa. Mais que isso: Deus corre (é lindo isso!) ao encontro do filho arrependido. E mesmo se o filho cheirar como um porco, ele o cobre de beijos.

Ricardo Peter intuiu corretamente o porquê do ódio dos fariseus contra Jesus:
Os fariseus começaram a perceber que Jesus estava mudando radicalmente a maneira de entender quem é Deus. Este Deus teria podido provocar confusão e dispersão entre as pessoas religiosas. O comportamento do Deus anunciado por Jesus, do Deus que demonstra um amor incondicionado pelos pecadores, começava a colocar o Deus dos fariseus na sombra. Tinha início uma luta de ‘Deus contra Deus’.

Os religiosos contemporâneos de Jesus queriam que Deus excedesse o poder de Baal. Jesus se mostrava o oposto de uma divindade territorial e melindrosa. Ele era o salvador despido da arrogância. As pessoas aguardavam um líder que reunisse milícias mais arrasadoras do que as legiões romanas. Jesus, todavia, pegava crianças no colo enquanto ensinava que o Reino pertence a elas. Os pobres nacionalistas ambicionavam levar Israel à liderança do mundo para depois vingar os vários séculos de opressão. Jesus, contudo, abria o rolo da lei para citar as palavras do profeta: O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para pregar boas notícias aos pobres.

Assim, tomados de indignação, os religiosos conspiraram para matá-lo. – Se Jesus era a expressa imagem de Deus, merecia ser eliminado. Um Deus frágil não serve aos interesses da religião – qualquer uma.
No Carpinteiro amigo de Maria Madalena, a Divindade não se mostrou indiferente. O Emanuel, o Deus conosco, se moveu de viscerais afetos por uma viúva que enterrava o filho e chorou diante da sepultura do amigo. A dor humana dói em Deus. Isaías (63.9) antecipou a aflição de Deus ao dizer: Em toda a angústia deles, foi ele angustiado.

Ricardo Peter, com sua intuição sobre a revelação de Deus que Jesus brindou o mundo afirmou:
O Deus de Jesus assume o humano a tal ponto que liberta o homem da exigência de ser como Deus. Deus contém em si, agora o máximo de humanidade. Deus encontra-se imerso no humano. O ‘Reino’ de Jesus não requer seres excepcionais, melhores que o ‘resto dos homens’, que se preocupam em ser por eles contaminados.

Jesus incomoda sobremaneira os religiosos por mostrar que Deus é amor; e este amor relativiza qualquer dogmatismo. Nele as exigências e os ritos perdem força. Os conceitos milenares de um Deus inabalável e severo precisam ser jogados fora depois que se conhece o Bom Pastor.
Os que não distinguem entre o Deus grego ou fariseu e o Deus que Jesus encarnou têm razão em decretar a sua morte. A expressão Deus está morto não passa de um grito ressentido de gente que se defrontou com a noção errada de Deus; a divindade anunciada como um déspota obcecado pelo poder, realmente, precisa ser sepultada.

O Reino que Jesus de Nazaré revelou não tem paralelo com os reinos humanos. Sua proposta de vida continua despercebida dos poderosos, pois acontece entre pequeninos e no meio de desprezíveis: grãos de mostarda, ovelhas indefesas, pessoas ineficientes, servos inúteis, pecadores indignos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, estrangeiros, exorcistas informais.

Deus escolheu esvaziar-se para revelar-se no Filho, Jesus Cristo. Todas as outras divindades merecem ser descartadas como ídolos.




A Deus toda a glória!


Carlos R. Silva
inverno 2013


Compilação do texto Jesus: a negação do ídolo, a afirmação de Deus de Ricardo Gondim.